O que é?
Terapia larval, terapia com larvas medicinais, biocirurgia, bioterapia ou biodesbridamento é a utilização de larvas de moscas necrobiontófagas (que se alimentam exclusivamente de tecido necrosado) no tratamento de diferentes tipos de feridas. Estas larvas atuam removendo o tecido necrosado, estimulando o tecido de granulação e promovendo a descontaminação microbiana.
Larvas de diferentes espécies já foram utilizadas na terapia larval, no entanto, a mais utilizada é Lucilia sericata (Meigen, 1826), muito comum em países do hemisfério norte. No Brasil, espécies como as do gênero Chrysomya (Robineau-Desvoidy, 1830) apresentam potencial para a mesma utilização, visto que possuem aspectos biológicos e comportamentais semelhantes à L. sericata. Na Colômbia, pesquisadores já desenvolvem estudos utilizando Lucilia eximia (Wiedemann, 1819) em pacientes1.

Chrysomya megacephala, fêmea (à esquerda) e macho (à direita), uma das espécies existentes no Brasil com potencial para utilização em terapia larval.
Histórico
Ao longo da história, o homem tem buscado formas diversificadas e naturais para tratar suas feridas, com o objetivo de diminuir a dor e o tempo de cicatrização. A utilização de larvas de certas espécies de moscas na limpeza de feridas é conhecida há séculos. Civilizações antigas como tribos aborígenes da Austrália2, habitantes do Norte de Mianmar3 e os Maias na América Central já utilizavam os benefícios desta técnica4.
A terapia larval foi utilizada de forma intencional pela primeira vez nos Estados Unidos em 1931, por William Baer, cirurgião ortopédico no Hospital Johns Hopkins. Durante a primeira grande guerra, Baer observou que feridas infestadas por larvas de moscas nos soldados que eram recolhidos nos campos de batalha apresentavam melhora significativa em relação aos outros, devido à ação de desbridamento (remoção no tecido necrosado) realizada naturalmente por essas larvas.
Com base nessas observações, 10 anos mais tarde, ele repetiu o mesmo princípio no tratamento de pacientes acometidos com osteomielite. Apesar do êxito obtido (sucesso em 90% dos casos), a utilização dessa técnica teve de ser interrompida, já que alguns pacientes apresentaram tétano. Foi então que pesquisas visando a desinfecção das larvas e a esterilização de ovos das moscas começaram a se desenvolver.
A terapia com larvas medicinais foi utilizada rotineiramente até meados da década de 40 em mais de 300 hospitais. No entanto, com o advento dos antibióticos e o aperfeiçoamento das técnicas de desbridamento cirúrgico, a terapia larval foi considerada obsoleta até o início de 1980. Nesse período, devido ao aumento de pacientes com feridas necróticas e pés diabéticos e também pela resistência das bactérias a inúmeros antibióticos, a terapia larval voltou a ser utilizada nos Estados Unidos, Reino Unido e Israel5. Atualmente, a terapia larval é utilizada em mais de 30 países ao redor do mundo e cerca de 24 laboratórios fornecem larvas estéreis para esse tipo de tratamento. No Brasil, vem sendo estudados mecanismos para esterilização de ovos e desinfecção de larvas de diferentes espécies, no entanto, o procedimento ainda não foi aplicado em pacientes.
Referências bibliográficas
1 ECHEVERRI, M.I.W.; ÁLVAREZ, C.R.; HIGUITA, S.E.H.; IDÁRRAGA, J.C.W.; FRANCO, M.M.E. Lucilia eximia (Diptera: Callphoridae), uma nueva alternativa para la terapia larval y reporte de casos en Colombia. Iatreia 23: 107-116. 2010.
2 DUNBAR G.K. Notes on the Ngemba tribe of the Central Darling River of Western New South Wales. Mankind; n. 3, p.177–80, 1944.
3 GREENBERG, B. Flies and Diseases: Biology and Disease Transmission. Vol II Princeton University Press, Princeton, NJ, p. 740 , 1973.
4 WEIL G.C. ; SIMON R.J. ; SWEADNER W.R. A biological, bacteriological and clinical study of larval or maggot therapy in the treatment of acute and chronic pyogenic infections. Am. J. Surg.; nº 19, p.36–48, 1933.
5 MUMCUOGLU K.Y.; INGBER A.; GILEAD L.; STESSMAN J.; FRIEDMANN R.; SCHULMAN H. Maggot therapy for the treatment ofintractable wounds. International Journal of Dermatology 1999; 38(8):623-627.
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Autores
Adriana Cristina Pedroso Ferraz
Analu Bento
Bárbara Gadelha
Daniele Lourinho Dallavecchia
Valéria Magalhães de Aguiar Coelho
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